Arrisco-me a dizer que neste último domingo houve um ensaio para transformar o ex-presidente FHC em um dos assuntos mais comentados na internet brasileira, via twitter e blogs.
Se a análise estiver correta, o episódio pode servir de exemplo de uma das maneiras como se pode dar a gênese de um “trend topic” – assunto que é tendência na web, popularmente conhecido como assunto que “bomba”.
Mas não deu certo até agora, apesar da ajuda dos meios tradicionais de comunicação (p.s.: este post foi escrito antes das 13h).
Na edição da Folha de ontem, no caderno Ilustrada, a capa traz uma reportagem sobre o documentário “Quebrando o Tabu”, produzido por Luciano Huck e dirigido por seu meio-irmão Fernando Grostein Andrade, em que a estrela é o ex-presidente FHC e a coadjuvante é a droga.
No filme, que vai ser lançado em circuito comercial, FHC roda vários países para conferir como é a relação dos estados nacionais com o consumo e o tráfico de drogas – imaginem FHC num coffee shop em Amsterdã.
Huck e o diretor, através de leis de incentivo à cultura, arrecadaram R$ 2,4 milhões para financiar a produção, mais do que um filme como “Cartola” que, segundo a Folha, arrecadou R$ 1,33 milhão.
Na página seguinte do mesmo caderno da Folha, FHC, estrela do filme, surge como um homem antenado no seu tempo, defendendo a descriminalização das drogas e que o consumo seja tratado como questão de saúde pública, e não como caso de polícia. O ex-presidente concede até mesmo a possibilidade de as pessoas plantarem maconha em casa como alternativa ao tráfico.
FHC discorre sobre o tema em entrevista à colunista Mônica Bérgamo. A entrevista é boa, e o ex-presidente faz declarações lúcidas, que o aproximam em parte, neste tema, de parcelas importantes do pensamento progressista.
“Quando eu digo descriminalizar, eu defendo que o consumo não seja mais considerado um crime, que o usuário não passe mais pela polícia, pelo Judiciário e pela cadeia. Mas a sociedade pode manter penas que induzam a pessoa a sair das drogas, frequentando o hospital durante um período, por exemplo, ou fazendo trabalho comunitário. Descriminalizar não é despenalizar. Nem legalizar, dar o direito de se consumir drogas”, disse FHC na entrevista.
O tucano argumenta também, em outro momento da entrevista, que a institucionalização de espaços para o consumo da droga poderia ajudar a combater a epidemia de drogas como o crack. “Em SP, na cracolândia, o pessoal se droga na rua, à vontade. É melhor se drogar na rua ou ter um local específico? Isso não é liberar, é tratar como saúde pública”, comenta.
Porém, nosso objetivo principal aqui não é debater o tráfico e o consumo de drogas nem a posição de FHC sobre o assunto, e sim analisar o que pode ter sido uma tentativa de colocar o ex-presidente, nesta segunda e nos dias subsequentes, em evidência na internet.
Tentativa que, se tivesse dado certo desta vez, atenderia recomendação do próprio FHC ao PSDB, a de disputar a opinião da classe média através das redes sociais.
No mesmo domingo, o blogueiro Reinaldo Azevedo, hospedado na página da revista Veja, vociferava. “A petralhada está enchendo o meu saco”, escreveu, logo na abertura de texto em que insinuava que uma multidão de petistas estaria cobrando dele, naquele momento, um posicionamento a respeito das opiniões de FHC. Opiniões que estariam à esquerda do pensamento do próprio Reinaldo, reconhecido conservador e defensor ferrenho do ex-presidente tucano.
“A partir de amanhã e por uns bons dias, o Brasil terá um novo assunto: a descriminação das drogas, da maconha em particular”, profetizava, em outro trecho de seu post, o articulista da Veja. Ele certamente apostava que o assunto tomaria a rede, e para ajudar nisso, simulava chamar os “petralhas” para briga e assim, atear fogo na discussão.
Nada disso ocorreu. Até a manhã desta segunda, quase meio-dia, apenas 181 pessoas haviam comentado o texto de Reinaldo no próprio blog dele.
No mesmo horário, o “trend topic” #maconha estava no ar, mas sem nenhuma menção a FHC. Muito provavelmente, maconha era um dos temas que lideravam a corrida nas redes sociais hoje em função do longo debate sobre o tema e de eventos como a Marcha da Maconha, tratada a cassetetes e e gás de pimenta pela polícia do PSDB, em São Paulo. O tucano não capitalizou o tema nas redes sociais.
Nem mesmo a ajuda do Fantástico de ontem, que também tratou do tema e exibiu entrevista com FHC, fez a imagem do presidente colar no assunto. Pelo menos por enquanto.