O sentido da recente eleição peruana para os trabalhadores. Artigo de Kjeld Jakobsen

Ollanta Humala, eleito presidente do Peru no segundo turno das eleições realizadas no dia 5 de junho, não tem origem na esquerda. Ele é militar da reserva, nacionalista e na disputa presidencial de cinco anos atrás, quando venceu no primeiro turno e perdeu para Alan Garcia no segundo, recusou-se a fazer alianças políticas.

Porém, nas atuais eleições, buscou alianças à esquerda e ao centro e apresentou um programa com forte conteúdo social e desenvolvimentista, o que permite alinhá-lo ao campo progressista que vem continuamente assumindo governos em vários países da América Latina.

Ele derrotou a candidata da direita neoliberal, Keiko Fujimori, não somente filha, como também herdeira política, de Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, período marcado por profundo ajuste neoliberal, corrupção e autoritarismo. Ele atualmente cumpre pena de 25 anos por crimes de violação de direitos humanos e corrupção.

No entanto, foi uma eleição muito disputada que Humala venceu por uma diferença de apenas 3%. Esta vitória apertada tem muitas justificativas, principalmente a tradicional divisão entre o eleitorado da capital, Lima, e o do restante do país; a unificação da elite peruana e da mídia em torno da candidata conservadora e pelo fato de ainda haver setores da população que admiram Fujimori por ter derrotado a guerrilha de ultra-esquerda e posto fim a um conflito traumático que causou mais de 70.000 mortes.

Humala, entretanto, captou o apoio dos trabalhadores e dos mais pobres, para quem os três governos de Fujimori foram desastrosos. Além da concentração de renda que ele proporcionou e da quase completa privatização da economia peruana, também foi promovido um brutal desmantelamento do mercado de trabalho do Peru, de modo a transformar a maioria dos trabalhadores em “empreendedores privados”, palavras sofisticadas que designam trabalho informal e terceirização. A negociação coletiva praticamente deixou de existir e os salários atualmente representam apenas 22% do PIB do país – no Brasil representam 40%  – e cerca de 12 milhões de um total de 30 milhões de peruanos vivem abaixo da linha da pobreza.

Diante deste quadro ele obteve o apoio, desde o primeiro turno, da esquerda peruana representada pelo Partido Comunista do Peru, pelo Partido Socialista, entre outros, bem como das centrais sindicais CGTP e CUT e da “Frente Social”, que no ano passado elegeu a progressista prefeita de Lima, Susana Villarán. No segundo turno conseguiu apoios mais ao centro, como o do ex-presidente Alejandro Toledo que sucedeu Alberto Fujimori em 2000 quando este foi destituído da presidência por corrupção, e de intelectuais como o escritor Vargas Llosa, derrotado por Fujimori na disputa presidencial de 1990, todos preocupados com o retorno do “fujimorismo”.

O Peru passa agora por um momento de alto crescimento do PIB, principalmente em função de investimentos externos na mineração, exploração de recursos naturais e exportação de commodities. Porém, a atividade de mineração gera poucos empregos, não agrega valor e a exploração dos recursos naturais tem se mostrado altamente prejudicial ao meio ambiente e à numerosa população indígena que paulatinamente começa a despontar na cena política do país, a exemplo dos seus vizinhos Bolívia e Equador.

Apesar dos desafios que estão postos, há espaço para promover mudanças. Humala propôs introduzir um imposto sobre a mineração e pode também reativar o Imposto sobre Taxações Financeiras que havia sido introduzido no Peru em 2000 e desativado posteriormente, porque segundo o então ministro da economia, “distorcia o mercado”. Estes recursos serão necessários, para promover as políticas sociais necessárias, entre eles de distribuição de renda.

Certamente as pressões contrárias serão grandes. No dia seguinte à eleição, quando já se conhecia o resultado, a bolsa de valores peruana teve uma queda de 12% e a mídia começou a clamar pelo rápido anúncio de quem seriam o novo ministro da economia e o presidente do banco central, num claro movimento de chantagem, ao qual Humala tem resistido até o momento. Na política, por sua vez, a situação lhe é mais confortável. Seu Partido Nacional Peruano (PNP) elegeu a maior bancada do congresso e com algumas alianças poderá compor a maioria necessária para aprovar as medidas prometidas.

Para os trabalhadores e sindicatos há muitas expectativas, pois apesar da dificuldade em reverter muitas das políticas neoliberais dos anos 1990 já incrustadas no dia a dia do país, é o momento de maior oportunidade para avançar no combate à informalidade e na promoção de seus direitos fundamentais.

Para os demais países do continente, as expectativas também são positivas, pois além da continuidade das mudanças políticas em curso, a nova situação peruana poderá contribuir para o fortalecimento de processos internacionais como a conformação da UNASUL e outros.

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