Greve, instrumento de transformação social. E é bom lembrar: tem gente que virou ministro porque fez greve…

A greve é mais que um direito constitucional e um instrumento legítimo para os trabalhadores cobrarem aumentos salariais, proteção e ampliação de direitos e melhoria das condições de vida em geral.

Um movimento grevista também é um dos principais momentos para elevar a consciência crítica da população. É uma oportunidade de as pessoas se enxergarem como conjunto transformador, e por isso guarda em si potencial de catarse política, de passagem para uma experiência ativa de mudança do mundo social.

Compreendido esse potencial, entende-se porque as greves são tão hostilizadas – embora, e propositalmente, jamais de modo a apontar o verdadeiro temor – pelos patrões em geral e todo o sistema hegemônico de que dispõem.

O que não se pode entender ou mesmo aceitar é que administradores públicos das três esferas de governo, especialmente aqueles que têm origem no movimento sindical e nas lutas sociais, tentem desqualificar a greve ou coloquem-se contra o movimento como se defendessem um princípio.

Acompanhamos em greves recentes e bastante disputadas – como a dos professores em 17 estados brasileiros e a dos Correios – manifestações autoritárias e reacionárias que se prestaram à deseducação política e à desmobilização social.

Crédito da foto: Dino Santos

Nem vamos nos deter mais longamente em reações truculentas como a de alguns governadores e prefeitos que permitiram ou talvez até tenham ordenado a repressão policial sobre os trabalhadores, tamanho o absurdo da conduta.

Porém, não é preciso chegar a tal manifestação antidemocrática para ser igualmente nocivo à organização dos trabalhadores. A ameaça de não negociar com grevistas ou a intenção de negociar separadamente com aqueles que não aderiram à greve é uma tentativa de premiar o medo, a timidez e, principalmente, o individualismo. Ainda que a escolha de participar ou não de uma greve seja um direito legítimo de cada trabalhador e trabalhadora, quando uma autoridade pública acena positivamente para aqueles que optaram pela via solitária, presta desserviço igual à construção da consciência política coletiva e ao sonho de mudar a sociedade.

Quando atitudes como essa partem de companheiros que já foram sindicalistas e que já fizeram greve, deparamo-nos com uma ameaça séria. Claro que não podemos nos deixar levar pela sensação de desalento que tal situação poderia produzir, mas é inevitável um travo de decepção na garganta – sem falar que a conduta desses companheiros serve como justificativa para políticos tradicionalmente avessos às lutas populares.

Devemos lembrar que no Brasil de hoje há ministros e presidentes de estatais que só chegaram lá porque fizeram greves ao longo de suas trajetórias. Esquecer-se disso é jogar contra a proposta de transformação social que tem nos guiado nas últimas décadas. Se queremos construir um novo modelo de desenvolvimento, com ênfase na distribuição de renda, na superação das desigualdades e na afirmação da liberdade, devemos repudiar tal comportamento demonstrado por algumas autoridades públicas nos últimos dias.

Se nosso desejo é que as pessoas que hoje saem da pobreza e começam a ascender socialmente não reproduzam amanhã o mesmo espírito de competição entre iguais do qual já foram e ainda são vítimas, se queremos a solidariedade como princípio e o coletivo como estratégia, nosso caminho é totalmente outro.

Assembleia dos trabalhadores do Correio em greve. Crédito: Fentect-CUT

Greve não é um objetivo em si

Nada disso quer dizer que a greve seja algo que busquemos como recurso primeiro. Ao contrário. Quando acontece, a greve é resultado de um processo de negociação que fracassou. Em circunstâncias assim, é o último e único recurso de pressão dos trabalhadores, diante da multiplicidade de mecanismos de que dispõem os empregadores – força econômica, domínio dos meios de comunicação e até controle das forças de repressão.

Os mais bem sucedidos processos de negociação, por sua vez, derivam da realização de greves em períodos anteriores que elevaram o grau de consciência política e organizativa de determinados grupos.

Já o fracasso de um processo de negociação não pode ser atribuído a um único ator do processo. Tanto no setor privado quanto no público, os administradores têm entre suas funções básicas a intermediação de conflitos trabalhistas.

Justiça do trabalho

Por isso consideramos inadmissível que a Justiça do Trabalho, como alguns de seus mais destacados representantes fizeram por ocasião da greve nos Correios, atribua aos trabalhadores e seus sindicatos a responsabilidade total pelas paralisações.

Aliás, a chegada de um conflito entre capital e trabalho até a Justiça é o pior cenário de um movimento grevista, pois sinaliza o fracasso completo do processo de diálogo.

Ainda sobre a Justiça do Trabalho, é importante destacar – registre-se que isso não ocorreu no caso dos Correios – a prática cada vez mais recorrente de julgar a conveniência ou o caráter abusivo da greve antes mesmo de considerar a justeza das reivindicações.

Já na Justiça comum, desse modo de avaliar os movimentos grevistas derivam-se os interditos proibitórios, que impedem os trabalhadores de se reunir nas proximidades da empresa em momentos de mobilização. Outro absurdo.

Vivemos no Brasil um momento complicado em relação aos processos de negociação coletiva. Há um vácuo legal para o qual já propusemos, para o setor público, a regulamentação da Convenção 151 do OIT – já ratificada pelo Congresso – e a organização por local de trabalho tanto para o setor privado quanto para o público.

Um dos legados dos anos Lula e Dilma deve ser a ampliação da consciência e participação política do povo, jamais o contrário.

Protesto em Wall Street. Foto Google

No mundo inteiro

Enquanto isso, os indignados de todo o mundo vão às ruas protestar contra o capitalismo, ainda que de forma fragmentada, com bandeiras múltiplas, reivindicando uma nova forma de gerir o planeta. Todos que acampam, levantam bandeiras e batem bumbo querem dizer, se me permitem o uso de uma frase que os estadunidenses criaram, com sua capacidade toda própria adquirida graças ao cinema e à publicidade: “Você não me deixa sonhar, então eu não deixo você dormir”.

O Brasil, que pleiteia, com justiça, uma posição de comando na diplomacia internacional, bem que poderia dizer ao mundo, durante as cerimônias públicas e nas coletivas de imprensa de fóruns mundiais como o próximo G-20, que não há nada comprovadamente mais eficaz contra a crise do que a organização da classe trabalhadora, ao mesmo tempo responsável pela produção e pelo consumo.

Arrisco-me a dizer ainda que a América Latina, a partir de suas experiências contra-hegemônicas, tem todo o direito de propor aos povos do Hemisfério Norte a desobediência ao sistema financeiro, esse que rouba nossos sonhos.

Anúncios

8 Comentários

Arquivado em Uncategorized

8 Respostas para “Greve, instrumento de transformação social. E é bom lembrar: tem gente que virou ministro porque fez greve…

  1. Igor Donato

    A greve ainda é uma ferramenta mal usada no Brasil, e está muito distante de alcançar a raiz do problema, devido os vícios de nossa sociedade. O texto não me traz nenhuma convicção de importância sobre os resultados positivos deste movimento, apenas o beneficio de uma classe, que prejudicará tantas outras, a reunião do povo deveria se dar não por seus próprios bolsos e egoísmo unilateral, mas a busca pela justiça, médicos e professores só lutam por si, e esquecem seu profissionalismo e o que prometeram em suas universidades, cuspiram no código de ética, buscando unicamente seus salários, o país está uma vergonha, esse é um mal mundial, mas o Brasil a cada dia se esforça mais e mais para se destacar em um ato tão vergonhoso.

    • Igor,

      sabe que quando professores, enfermeiros(as), bancários(as) etc fazem greve, pelo menos nos sindicatos ligados à CUT, também pedimos a melhoria dos serviços à população?
      Eu sei que você sabe que, por exemplo, na greve dos Correios, uma das reivindicações era para tentar diminuir a exigência sobre os carteiros que entregam toda aquela quinquilharia dos bancos que você e todos nós recebemos para nos convencer a adquirir cartão de crédito e outras roubadas.

      A greve, qualquer greve,não é só pra reclamar de problemas pessoais, é pra tentar melhorar a vida de todos.

      Sei que pode parecer difícil acreditar nisso, mas vamos conversar mais. Mande mais perguntas que a gente vai dialogando. Boa sorte e um grande abraço

      Artur

  2. Meu caro. Arthur.
    tudo isto que agora foi exposto por você,é o verdadeiro sentimento que nós sindicalistas temos…
    Porém ,nós trabalhadores dos CORREIOS fomos julgados e condenados por este governo ” DILMA ” e seus agentes de plantão, e ficou um sentimento e uma grande maioria dos trabalhadores dos correios de traição por parte do PARTIDO DOS TRABALHADORES E DO GOVERNO DE DILMA ROUSSEF, GOVERNO este que ajudamos a eleger, e que hoje vira-nos as costa como resposta…
    Portanto para o governo mostrar que esta não foi uma atitude correta, deveria de imediato suspender administrativamente, os efeitos do julgamento do TST, e devolver os DINHEIRO DOS DIAS DESCONTADOS, DOS GREVISTA, E MANTER A COMPENSAÇÃO APENAS ATÉ, QUE OS SERVIÇOS SEJAM NORMALIZADOS…E TROCAR O PRESIDENTES DOS CORREIOS E O MINISTRO DAS COMUNICAÇÕES…, se tudo isto que está colocado em seu blog, é realmente o que você pensam: esta seria a atitude mais coerente por parte da CUT…

    • Ribamar,

      eu também fiquei indignado com a postura desses caras. Mas eu não tenho a tarefa, e muito menos o poder, de dizer que ministro tem de sair ou não. Se fossem nossos inimigos históricos, pedriríamos a fritura deles. Mas não é o caso. O que temos de fazer é cobrá-los para que não se esqueçam de onde vieram. Se eles não nos ouvirem, aí, vamos pensar em outra coisa.

      Mas eu acredito que eles podem rever as posições. Meu papel eu estou fazendo, não só através deste blog, mas também pessoalmente com eles.

      Continue escrevendo para nós, sua opinião é essencial para nos manter no caminho.

      Abraços,

      Artur

  3. como exigencia a este governo…

  4. gimenes

    caro artur. venho colocandi isso desde o aumento do sálario minímo.por muitos sou considerado radical. Mas aprendi q as pessoas tem lado.. e a dilma não é o nosso. é da vanguarda de 68. o nosso projeto forjado nas lutas eles nunca apoiarão . s ão outras concepções. não tenham ilusões.

  5. Caro Artur,
    Você só esqueceu de mencionar em seu tardio texto,Adeilson Ribeiro Telles,da Executiva Nacional da CUT,chefe de gabinete do Presidente da ECT,que foi um dos principais negociadores da Comissão dos Correios que corroborou com todas as práticas de enrolação e endurecimento aos trabalhadores propostas pela Direção Ecetista.
    E onde estava José Lopes Feijoó,ex-vice-presidente da CUT,durante nossa longa greve,que agora está na secretaria geral da presidência e teria como missão manter a ponte do diálogo entre o governo e os movimentos sociais?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s