Arquivo do mês: maio 2010

ACORDO EM TEERÃ – O entendimento e os interesses americanos

Por Archimedes F. Lazzeri

Salta aos olhos o alinhamento das grandes agências de notícias do país com a CNN, que, em questões de política externa dos EUA, funciona como porta-voz do Pentágono e da Casa Branca. O alinhamento dos jornalões brasileiros aos interesses norte-americanos é uma questão que merece uma boa análise, pois o discurso em defesa da liberdade de imprensa precisa ser seguido do exercício dessa liberdade e, principalmente, da autonomia das redações.

A mídia perdeu uma grande oportunidade para questionar o papel da diplomacia dos EUA em tempos de governo Obama. Afinal, para o Império do Norte, a guerra sempre foi condição necessária para se alcançar a paz. Por que a imprensa não explora o silêncio de Obama? O mundo espera o pronunciamento do presidente dos EUA, ele tem de decidir se fica com o Nobel da Paz, recebido dezembro de 2009, ou se devolve o prêmio para a academia. Em Oslo, Obama falou menos em diplomacia e mais em “instrumentos de guerra”, meio preferido pelos EUA para a preservação da paz.

Por que a mídia não busca ouvir outras vozes além dos diplomatas do G5 + 1, como pacifistas religiosos, especialistas em geopolítica e pesquisadores do assunto?

Logomarcas bem conhecidas

Para os verdadeiros pacifistas, não existe razão para esperar outra posição da política externa dos EUA que não seja aquilo que está no receituário imperialista e militar: exigir dos não alinhados a rendição incondicional e a submissão em troca da “paz” imposta pela lógica militar e econômica, que promove conflitos armados para aumentar o faturamento da poderosa indústria militar norte-americana.

A diplomacia brasileira embaralhou as cartas, essa é a novidade que a mídia tenta esconder. No Conselho de Segurança, o jogo agora poderá ser jogado com a participação de novos personagens, sem cartas marcadas. O discurso de que sem guerra não há paz foi esvaziado no Iraque, com falsos relatórios sobre ameaças de armas químicas. O que prevaleceu no Golfo do petróleo foi a barbárie, inclusive com o uso de armas químicas norte-americanas, carregadas de logomarcas bem conhecidas, tais como a Dow Chemical Compa ny, principal fabricante do napalm.

Por que acreditar nos senhores da guerra?

O acordo Brasil, Irã e Turquia pode ser o sinal de uma nova geopolítica mundial, com maior protagonismo dos países que não são potências militares, mas que se apresentam como porta-vozes de um grande contingente humano, sem interesses em conflitos armados – afinal, o palco do teatro de guerra nunca é montado nos EUA ou na Europa. Esse é outro aspecto que poderia ser abordado pela mídia, o interesse das populações que habitam áreas de conflito.

Defender esse acordo é o papel dos pacifistas. Os países ricos perderam a credibilidade para se apresentarem como modelos civilizatórios para as demais nações. Desse ponto de vista, a escolha por sanções e ameaças ao povo iraniano demonstra a opção pela barbárie – basta olhar para Iraque de hoje. O século 21 está em aberto e não é preciso repetir a lógica do século passado. É preciso dar nova oportunidade para a diplomacia e para a paz.

A pergunta que deveria orientar o trabalho nas redações diz respeito à utilização de instrumentos de guerra para fins pacíficos na busca da paz. Afinal, por que acreditar cegamente nos senhores da guerra?

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Conquista histórica

Trabalhadores na BASF Demarchi aprovam redução da jornada de 42h para 36h27min

Por Sindicato dos Químicos do ABC  

Os trabalhadores da BASF Demarchi, em assembléia realizada no início da tarde desta segunda-feira  (24), aprovaram proposta de acordo de redução de jornada de 42h para 36h27min.

Com esse acordo, a maioria dos cerca de 1.300 trabalhadores da produção de São Bernardo do Campo passam a trabalhar no sistema 6×3, o que irá gerar mais 100 postos de trabalho diretos e indiretos, em curto prazo, além das promoções que irão acontecer com a mudança.

O acordo inclui os setores Fábrica 1 e Suvinil, incluindo produção, laboratório e logística, que se juntarão com os da Resina e da Segurança Patrimonial que já conquistaram a redução de jornada.

Na avaliação do Sindicato dos Químicos do ABC e da Comissão de Fábrica, trata-se de um acordo histórico, resultado de mobilização e união dos trabalhadores.

“Hoje os trabalhadores na BASF Demarchi comemoram mais um grande vitória, uma vitória histórica de redução de jornada. O que significa uma vida com mais qualidade para todos, uma vida sem hora-extra. Significa também o justo retorno da produtividade acumulada pela empresa nos últimos anos e a geração de cem novos postos de trabalho”, comentou o diretor da CNQ-CUT, do sindicato e trabalhador na BASF Demarchi, Fábio Lins.

A assembléia terminou em clima de festa. Na mesma assembléia, os trabalhadores aprovaram o novo acordo de Programa de Participação nos Resultados (PPR 2010) que, se atingidas as metas, pode pagar até 3.8 salários para cada trabalhador.

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A eleição do projeto democrático e popular vai aumentar a correlação de forças a nosso favor

Temos de ter orgulho não apenas de nossa condição de trabalhadores brasileiros, da condição de cutistas. Segundo o professor Emir Sader, somos “orgulhosamente responsáveis” pela interrupção do ciclo neoliberal que vinha destruindo nossa Pátria. Temos orgulho também de nossa Pátria maior, essa nação latino-americana que vem demonstrando ao mundo a possibilidade de construir um novo modelo de desenvolvimento que procura incluir as pessoas.

O exemplo brasileiro vem espantando o planeta. Sério, não há aqui nenhum exagero. Pela primeira vez na história, o Brasil enfrentou uma crise com remédios outrora considerados mortais. Em lugar de adotarmos o arrocho, apostamos nos aumentos reais de salário, na ampliação do emprego formal, na desoneração fiscal, na diminuição de tributos sobre o salário – traduzida na correção da tabela do imposto de renda, já uma realidade, e na nossa luta por um modelo arrecadador que seja rigoroso com os mais ricos -, na ampliação dos investimentos na agricultura familiar, na porta mais ampla de acesso ao ensino superior, na iluminação elétrica das casas camponesas, no sucesso do Bolsa Família, na política de valorização do salário mínimo, na parceria comercial com países que antigamente eram relegados a segundo plano por nossas elites, no diálogo do Estado com os representantes da classe trabalhadora.

O Lula tem um papel incrível nessa transformação.  Mas ele tem sido – e aqui peço licença a todos que o admiram – apenas um representante da vontade da maioria. Ele chegou lá por nossa causa, nós os trabalhadores e trabalhadoras que temos a coragem de nos unir, organizar, pensar estratégias detransformação, de incomodar as pessoas consideradas sérias e sensatas, de quebrar barreiras, de gostarmos de nós mesmos.

Houve época em que se dizia que o povo tem o governo que merece. Resquício da ditadura, a frase tinha por objetivo nos desmerecer. Hoje, 1º de Maio de 2010, ganha outro significado.O governo Lula, apesar de ainda conciliar interesses que não os nossos, em virtude de uma perspicaz estratégica de acumulação de forças, é um governo que nós, trabalhadores organizados, estamos fazendo.

 O governo Lula, como dito ontem pelo companheiro José Dirceu, durante os debates do nosso Seminário Sindical Internacional, colocou o Brasil no lugar que sempre mereceu ter no mundo, e os brasileiros no lugar que merecem ter no Brasil. Esse governo é nosso.

Como nos demais países de nosso continente, estamos diante de cenários eleitorais em que a direita, embora mais polida que nos tempos dos generais, está excitada pela perspectiva de retomar o controle do Estado. Estado este que destruíram, em nome de uma ideia tosca, rudimentar, de que o que é bom para o imperialismo é bom para o Brasil.

A candidatura da direita já fala abertamente em enxugamento do Estado, na retomada da visão unipolar do comércio exclusivo – perdoem-me o excesso de adjetivos – com o Hemisfério Norte,na criminalização dos movimentos sociais como a CUT e o MST.

Ai de nós se os neoliberais estivessem no poder.

Com a vitória eleitoral do projeto democrático e popular, a acumulação de forças será maior a nosso favor e poderemos fazer mais pela inclusão social e pela democracia. Vamos lá.

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Outro Lado – Folha/Estadão

Folha

– A manchete da Folha bem poderia ter sido o resultado da última pesquisa de seu Datafolha. A chamada da página A10 é entusiasmante: “Dilma cresce em todas as regiões e faixas de eleitores”. Na capa, a mesma chamada está bem pequena, no canto esquerdo. Dilma, pelo Datafolha, tem 37% das intenções de voto, empatada com Serra. Só que o tucano vem caindo pelas tabelas, como demonstra a pesquisa, enquanto Dilma só cresce, especialmente na preferência dos que apóiam o governo Lula, faixa em que ela cresceu 9 pontos. E 11% dos eleitores ainda desconhecem quem é a “candidata do Lula”, mas garantem que votam em quem o presidente apoiar.

– Porém, a manchete escolhida foi sobre supostas negociações de Lula para ocupar a chefia da ONU ou do Banco Mundial depois de deixar o governo brasileiro. Hugo Chávez aparece no texto prometendo “apoio entusiasmado”. Segundo o jornalista Fernando Rodrigues, autor da matéria, na ONU ou no Banco Mundial Lula poderia fazer mais pelo combate à fome.

– No Painel, nota informa que no dia 11 de julho, no intervalo da final da Copa, todas as emissoras de TV ligadas na partida vão transmitir um comercial exaltando um novo Brasil, aquele da sede da próxima Copa  – “moderno, alegre”. Menos a Rede Globo, informa a coluna. Por que será?

O comercial, dirigido por Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) vai ser veiculado pelo mundo ainda pelos 20 dias seguintes. Menos na Globo.

– Jânio de Freitas vê Serra no “dois pra lá, dois pra cá”, a cada pesquisa, “sem sair da mesma zona de pontos”. Para o articulista, ali o candidato encontra “uma limitação”. Mais adiante, em sua coluna de domingo, Freitas também cita, com certa ironia, a aliança de Serra com o PV de Gabeira, no Rio, onde o candidato teria então dois palanques. E manda um recado: “Mas estar em palanques não basta e estar em dois é estar em nenhum”.

– Texto destaca “mobilização” ocorrida em São Paulo. 70 moradores de Moema, bairro nobre, protestaram contra a redução das vagas de estacionamento nas ruas sem zona azul. Estadão também deu foto. Éramos mais de 9 mil nas mobilizações em São Bernardo e Diadema, no último dia 18, e nem notinha saiu.

– Caetano Veloso, sempre “moderno”, vai votar em Marina Silva, informa a Folha.

– Talvez o mais importante debate trazido pelo jornal neste domingo vem na forma de matéria intitulada “Para Onde Vão Nossos Impostos?”. Enxuto, texto afirma que de cada R$ 100 arrecadados no Brasil, R$ 34,19 se destinam a políticas de proteção social – aposentadorias, previdência, seguro- desemprego e bolsa-família (que consumiria R$ 0,99 de cada R$ 100 arrecadado), entre outros. Na visão da CUT, essa é uma excelente maneira de investir os impostos. É preciso combinar uma estratégia de formalização cada vez maior do mercado de trabalho – algo pelo qual lutamos em várias frentes – com uma nova estrutura tributária brasileira, em que os assalariados paguem menos impostos que os mais ricos, ao contrário do que ocorre hoje. Conseguiremos assim garantir o financiamento da estrutura e manter a luta por justiça e distribuição de renda.

No mesmo texto, uma notícia um tanto quanto obscura, mas cujo segredo não é tão difícil de imaginar. Um tal Movimento Brasil Eficiente, organizado por empresários, promete lançar uma campanha para redução da carga tributária em 1% ao ano, com base na máxima “que o governo federal aplique melhor os recursos”. Aí tem.

É preciso mesmo alterar a estrutura tributária brasileira, mas isso nada tem a ver com o discurso de que não podemos ter uma carga tributária semelhante a de países como Espanha e Japão (este argumento é usado pela Folha) só por não sermos Espanha ou Japão. O jornal diz que nosso patamar de impostos “só é encontrado no mundo rico ou em países que viveram experiências socialistas ou social-democratas”. Ué…

– Todo dia, na rede estadual de São Paulo, um professor público tira licença médica por dois anos. Mesmo sendo noticiado pela Folha, o fato vem bem explicado: más condições de trabalho, alta carga horária e impossibilidades mil para preparar aulas. Os professores adoecem.

Estadão

– Em manchete, o jornal volta a abordar a proliferação de sindicatos no Brasil. Uma nova entidade sindical por dia, segundo levantamento. Ao que tudo indica, a matéria foi motivada pela descoberta de um sindicato picareta na cidade de Rio Verde (GO). Eu falo na matéria, é claro que apenas um micro-trecho da longa conversa que tive com o repórter. A CUT nada tem a esconder nesse quesito: sempre denunciamos a indústria de sindicatos no Brasil, lutamos muito pela reforma sindical, à qual os empresários se opuseram, e queremos a ratificação da Convenção 87, que garante autonomia e liberdade sindical, sem essa história de imposto. Só um pergunta: por que nunca, nunca mesmo, os jornais abordam a estrutura sindical dos empresários, tão carcomida e avessa a mudanças que se torna a maior responsável pela manutenção da coisa como está?

– O jornal diz que o PMDB, que deve ocupar a vice de Dilma, vai propor ao programa de governo a cobrança de mensalidades nas universidades públicas. Nota zero para a idéia.

– Estadão reproduz avaliação do jornal inglês “Financial Times” sobre o acordo Brasil-Irã-Turquia: não importando os desdobramentos, diz o diário britânico, acordo “prova” que Brasil se tornou uma ponte entre o Ocidente e os emergentes.

– Cobras, aranhas e quetais: Estadão volta a abordar o incêndio no Butantã e informa que o assunto teve repercussão internacional, com todos lamentando a perda do valioso acervo. Mas, curiosamente, ninguém destaca, ou sequer cita, que quem fez as cobras sumirem foi a administração tucana.

– Caderno especial traz uma longa reportagem sobre a narcoviolência no México. O assunto pede análise aprofundada e especializada, mas podemos dizer com certeza que a adesão cega aos ditames de Washington, especialmente nos anos 1990, está na raiz dessa guerra que assola os mexicanos. O recuo brutal do Estado em suas tarefas permitiu a ascensão do tráfico.

– Artigo do amigo Amir Khair, no caderno de Economia do Estadão, volta a analisar que o momento é de “pisar no acelarador”, e não iniciar ciclo de alta dos juros básicos da economia. Vale ler.

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